quarta-feira, 19 de junho de 2013

Os perigos da “pátria amada”


Estamos preocupados com o rumo que esse levante popular pode tomar e com a associação dele a um discurso midiático vazio.

O intuito da pequena reflexão que segue não é desmoralizar os atos ocorridos em diversas cidades brasileiras, que começaram contra o aumento das tarifas de transportes públicos, no início de junho, e, hoje, apresentam “pautas” variadas. É justamente a pulverização dessas motivações que nos preocupam. Quais são os motivos da luta mesmo?
Na página virtual (Facebook) do Quinto Ato, marcado para o dia 17 de Junho e com mais de 240 mil pessoas com presença confirmada (já esperando os ataques bárbaros da Polícia), as enquetes conseguem fazer qualquer queixo que se preze cair. Em uma delas, que perguntava qual bandeira deve-se levantar após a baixa dos preços das passagens (se houver), algumas das propostas colocadas como motivo de mobilização (mesmo que não muito votadas) são: cancelamento da Copa do Mundo 2014 (um tiro no pé, com todo o investimento já feito), Reforma Política (que reforma?), Segurança (mais PM nas ruas?), Diminuição da maioridade penal (sem comentários), Fim do Funk (projeto higienista manda um “Oi!”), a favor do Estatuto do Nascituro (sem comentários, de novo), CCC – Campanha Corruptos na Cadeia (não tinha um nome melhor? Quase um CCC – Comando de Caça aos Comunistas - de 1964), dentre outras propostas que preferimos não imaginar o que aconteceria caso ganhassem força.
Se por um lado, a heterogeneidade de propostas e a falta de uma liderança nos movimentos representa a possibilidade de uma relação horizontal entre os sujeitos; por outro, a falta de direcionamentos aponta para o risco de causas conservadoras se tornarem as principais do movimento agora sem nome. Não consideramos o quadro atual da manifestação como anárquico, classificação feita em algumas análises, mas como preocupante, nesse sentido.
Outro ponto bastante incômodo em relação às pessoas se organizando para o ato (e a fim de formar um movimento – longe de estar unificado), é o (perigoso) nacionalismo proposto por boa parte dos manifestantes, e presente principalmente na ideia de entoarem o Hino Nacional em coro. Em uma enquete, feita também na página de organização do ato da segunda-feira (17), a maioria esmagadora era a favor de que cantassem o Hino em massa. A verdade é que sentimentos ufanistas assustam, sobretudo por sabermos, historicamente, que nunca geraram bons frutos. Estudos apontam que o ideário nacionalista brasileiro, em sua trajetória, poucas vezes chegou às classes populares (por que será?), pertencendo aos militares. Um comentário bastante sensato feito na mesma enquete, colocou que o “hino é um instrumento que forja uma falsa unidade nacional”. Se a mundialização do capital está posta, a necessidade da mundialização da luta é latente. Para isso, nada de bandeiras do Brasil em volta de nossos corpos, nada de “pátria amada, idolatrada”.
É batido, mas Marx já justificara por A + B que “os operários não têm pátria” e, por mais que devamos lutar pelas condições horrendas as quais nos coloca o capitalismo, isso não tem a ver com o “orgulho de ser brasileiro”, mas com o orgulho de sermos humanos.
E aqui nasce uma nova preocupação: até ontem pairava no ar um espectro do oportunismo da “grande” mídia, que, aparentemente, pareceu ter sido desmistificado com as recentes publicações da Globo e seus atores com olhos pintados fazendo uma alusão à jornalista acertada covardemente com uma bala de borracha no olho, depois nos deparamos com um link a ser compartilhado nas redes sociais que trazia dicas de “Moda para protesto, roupa de guerra” - a estilista pop global, Gloria Kalil, já havia soltado no site dela opções de roupas (sic!) para ir ao ato. Agora, qualquer dúvida que ainda tínhamos sobre um possível oportunismo ficou clara ao nos depararmos com - o sempre tão incisivo - Arnaldo Jabor voltando atrás em relação a quando deslegitimizou as primeiras manifestações comparando-as com ações do PCC, vitimizando os policiais e ressaltando a ignorância política dos manifestantes. Ele se redime e depois compara o movimento ascendente com o, exaltado pela própria Globo, Caras Pintadas (o movimento pode ter se originado de uma indignação, mas logo foi absorvido pela maior rede de TV do Brasil... Ah! A mesma emissora que ajudou na eleição do Collor). Daqui a pouco, veremos propagandas de refrigerantes convocando o Brasil pras ruas, presenciado o maior “jogo” já visto... A arte de mercantilizar a revolução.
Pra não dizer que não falamos dos espinhos, ter os povos nas ruas, em massa, não é sempre sinal de mudança popular. Em 1964, os setores conservadores da sociedade tremeram com a “ameaça comunista” (ainda com Jango no poder), que representava, na verdade, uma “ameaça” à propriedade privada e foram às ruas, em meio milhão de pessoas, com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Dias depois, instaurada a Ditadura Militar, um milhão de pessoas marcaram presença na Marcha da Vitória, comemorando o início de duas das piores décadas que já vivemos. Estamos preocupados com o rumo que esse levante popular pode tomar e com a associação dele a um discurso midiático vazio.
Não queremos ver uma marcha à la TFP, com pessoas vestidas de branco, cantando o hino e levantando bandeiras com os dizeres “Cansei”. Precisamos de sujeitos engajados em uma luta comprometida com os movimentos sociais e populares, aliados aos anseios dos trabalhadores!
Reiteramos, mais uma vez, nosso ânimo e contentamento em viver tudo isso, mas mantenhamos os pés no chão para não defendermos um discurso uníssono no qual o senso comum pode se misturar com o que deveria ser um discurso crítico e de esquerda.

Camila Petroni é historiadora pela PUC-SP, Assistente Editorial e mestranda em História Social pela PUC-SP. Lattes:http://lattes.cnpq.br/371694913814605
Débora Lessa é socióloga pela PUC-SP, Professora de Sociologia e mestranda em Ciência Política pela PUC-SP. Lattes:http://lattes.cnpq.br/2369964242733352

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Transporte para um Brasil menos injusto


Vemos hoje uma verdadeira insurgência protagonizada pela causa do transporte público. Para a grande mídia em geral e para os pensamentos conservadores não passam de jovens arruaceiros que merecem repressão da polícia. Pode-se mais uma vez perder a oportunidade de debate daquilo que está no âmago da questão: a exploração e o desserviço prestado aos cidadãos/trabalhadores pelos sistemas de transporte Brasil a fora. Os mesmos que defendem o porrete contra os manifestantes viajam a Londres e a Paris e voltam elogiando a qualidade do transporte urbano de lá. Mas se esquecem de uma diferença fundamental para o nosso: naquelas cidades o transporte é público e estatal, voltado para promover a mobilidade dos cidadãos/trabalhadores com vistas a gerar mais mobilidade, eficiência produtiva e, porque não, bem estar. Além da ncontestável maior eficiência e qualidade, o transporte de lá é mais acessível. Em Paris, um bilhete unitário custa 1,70 euro (R$ 4,85) e um carnê com 10 sai por 13,30 euros (R$ 37,90). Mas se o cidadão paga o passe mensal, pode andar a vontade de ônibus, metrôs e trens por 65,10 euros (185,53) – http://www.ratp.fr/fr/ratp/c_20586/tous-les-titres-et-tarifs/. Aqui no Rio de Janeiro, se o trabalhador pagar 60 passagens de ônibus por mês gastará 177 reais (a R$2,95) e de metrô 210 reais (a R$3,50). Nosso salário mínimo é de 678 reais, enquanto o francês chegou a R$ 4063,15 (http://expresso.sapo.pt/salario-minimo-em-franca-sobe-para-142567-euros=f735665). As empresas de ônibus, trem e metrô cariocas introduziram os cartões eletrônicos nos quais se pode carregar o quanto quiser de dinheiro que o desconto é zero, pois isso serve na realidade para reduzir custos operacionais. E é aí que está a essência do problema: o transporte público é privado e voltado para a exploração do usuário. E como se constitui cada vez mais um monopólio, devido à repressão ao transporte alternativo (que no Rio ainda tem o agravante de ser controlado pelo poder paralelo), as empresas agem como querem. A situação piora, quando o prefeito eleito é financiado por essas empresas e frauda um edital de concessão para mantê-las com o monopólio que já detêm a mais de 40 anos (http://oglobo.globo.com/rio/apenas-quatro-empresarios-concentram-um-terco-do-transporte-rodoviario-no-rio-8417193). Pelo menos há 20 anos, todos os prefeitos eleitos recebem contribuições de empresas de ônibus na cidade. O dinheiro doado pelas empresas é retornado em forma de generosos aumentos acima da inflação. Ou seja, neste esquemão, os trabalhadores financiam a campanha de certos grupos políticos pagando o transporte público-privado. Essa cumplicidade, que não é exclusividade carioca, acaba com qualquer isenção do poder público em sua tarefa de regulação do sistema. Milhões de cidadãos/trabalhadores passam de 4 a 6h por dia em deslocamentos e ainda são taxados pelo discurso hegemônico positivista como ineficientes etc. Assim, a luta pela redução do custo da passagem representa algo muito maior. É por uma necessidade imediata, mas contesta e desestabiliza uma ordem econômica e política extremamente exploratória, que envolve a cooptação do poder público pelo setor privado e mostra que o problema é algo a mais do que “culpa dos políticos”. Quem sabe parando as ruas a luta pode desembocar em um debate que avance para o questionamento desta lógica injusta de estruturação do transporte público?

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Michel Foucault, um crítico da instituição escolar

Publicado em: http://revistaescola.abril.com.br/



Poucos pensadores da segunda metade do século 20 alcançaram repercussão tão rápida e ampla quanto o francês Michel Foucault (1926-1984). Por ter proposto abordagens inovadoras para entender as instituições e os sistemas de pensamento, a obra de Foucault tornou-se referência em uma grande abrangência de campos do conhecimento. Em seus estudos de investigação histórica, o filósofo tratou diretamente das escolas e das idéias pedagógicas na Idade Moderna. Além disso, vem inspirando uma grande variedade de pesquisas sobre educação em diversos países. "Foi Foucault quem pela primeira vez mostrou que, antes de reproduzir, a escola moderna produziu, e continua produzindo, um determinado tipo de sociedade", diz Alfredo Veiga-Neto, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Em vez de tentar responder ou discutir as questões filosóficas tradicionais, Foucault desenvolveu critérios de questionamento e crítica ao modo como elas são encaradas. A primeira conseqüência desse procedimento é mostrar que categorias como razão, método científico e até mesmo a noção de homem não são eternas, mas vinculadas a sistemas circunscritos historicamente. Para ele, não há universalidade nem unidade nessas categorias e também não existe uma evolução histórica linear. O peso das circunstâncias não significa, no entanto, que o pensador identificasse mecanismos que determinam o curso dos fatos e os acontecimentos, como o positivismo e o marxismo. 

Investigando o conceito de homem no qual se sustentavam as ciências naturais e humanas desde o iIuminismo, Foucault observou um discurso em que coexistem o papel de objeto, submetido à ação da natureza, e de sujeito, capaz de apreender o mundo e modificá-lo. Mas o filósofo negou a possibilidade dessa convivência. Segundo ele, há apenas sujeitos, que variam de uma época para outra ou de um lugar para outro, dependendo de suas interações. 

Disciplina e modernidade

Foucault concluiu, no entanto, que a concepção do homem como objeto foi necessária na emergência e manutenção da Idade Moderna, porque dá às instituições a possibilidade de modificar o corpo e a mente. Entre essas instituições se inclui a educação. O conceito definidor da modernidade, segundo o francês, é a disciplina - um instrumento de dominação e controle destinado a suprimir ou domesticar os comportamentos divergentes. Portanto, ao mesmo tempo que o iluminismo consolidou um grande número de instituições de assistência e proteção aos cidadãos - como família, hospitais, prisões e escolas -, também inseriu nelas mecanismos que os controlam e os mantêm na iminência da punição (leia o quadro acima). Esses mecanismos formariam o que Focault chamou de tecnologia política, com poderes de manejar espaço, tempo e registro de informações - tendo como elemento unificador a hierarquia. "As sociedades modernas não são disciplinadas, mas disciplinares: o que não significa que todos nós estejamos igual e irremediavelmente presos às disciplinas", diz Veiga-Neto.

O filósofo não acreditava que a dominação e o poder sejam originários de uma única fonte - como o Estado ou as classes dominantes -, mas que são exercidos em várias direções, cotidianamente, em escala múltipla (um de seus livros se intitula Microfísica do Poder). Esse exercício também não era necessariamente opressor, podendo estar a serviço, por exemplo, da criação. Foucault via na dinâmica entre diversas instituições e idéias uma teia complexa, em que não se pode falar do conhecimento como causa ou efeito de outros fenômenos. Para dar conta dessa complexidade, o pensador criou o conceito de poder-conhecimento. Segundo ele, não há relação de poder que não seja acompanhada da criação de saber e vice-versa. "Com base nesse entendimento, podemos agir produtivamente contra aquilo que não queremos ser e ensaiar novas maneiras de organizar o mundo em que vivemos", explica Veiga-Neto.

Arqueologia do saber

A contestação e a revisão de conceitos operadas por Foucault criaram a necessidade de refazer percursos históricos. Não é sobre os governos e as nações que ele concentra seus estudos, mas sobre os sistemas prisionais, a sexualidade, a loucura, a medicina etc.

Três fases se sucederam em sua obra. A da arqueologia do conhecimento é marcada pela análise dos discursos ao longo do tempo, de acordo com as circunstâncias históricas, em busca de um saber que não foi sistematizado. A genealógica corresponde a um conjunto de investigações das correlações de forças que permitem a emergência de um discurso, com ênfase na passagem do que é interditado para o que se torna legítimo ou tolerado. Finalmente, a fase ética centra o foco nas práticas por meio das quais os seres humanos exercem a dominação e a subjetivação, conceito que corresponde, aproximadamente, a assumir um papel histórico.

A docilização do corpo no espaço e no tempo

Para Foucault, a escola é uma das "instituições de seqüestro", como o hospital, o quartel e a prisão. "São aquelas instituições que retiram compulsoriamente os indivíduos do espaço familiar ou social mais amplo e os internam, durante um período longo, para moldar suas condutas, disciplinar seus comportamentos, formatar aquilo que pensam etc.", diz Alfredo Veiga-Neto. Com o advento da Idade Moderna, tais instituições deixam de ser lugares de suplício, como castigos corporais, para se tornarem locais de criação de "corpos dóceis". A docilização do corpo tem uma vantagem social e política sobre o suplício, porque este enfraquece ou destrói os recursos vitais. Já a docilização torna os corpos produtivos. A invenção-síntese desse processo, segundo Foucault, é o panóptico, idealizado pelo filósofo inglês Jeremy Bentham (1748-1832): uma construção de vários compartimentos em forma circular, com uma torre de vigilância no centro. Embora não tenha sido concretizado imediatamente, o panóptico inspirou o projeto arquitetônico de inúmeras prisões, fábricas, asilos e escolas. Uma das muitas "vantagens" apresentadas pelo aparelho para o funcionamento da disciplina é que as pessoas distribuídas no círculo não têm como ver se há alguém ou não na torre. Por isso, internalizam a disciplina. Ampliada a situação para o âmbito social, a disciplina se exerce por meio de redes invisíveis e acaba ganhando aparência de naturalidade.

Os alienistas

Publicado em: http://revistacult.uol.com.br/home/

Foucault detectou a tendência da psiquiatria em transcender os muros dos manicômios e associar a loucura a todo tipo de “anormalidade”



No Natal de 1958, Georges Canguilhem escreve a Foucault, depois de ter lido o manuscrito de Loucura e Desrazão: “Não mude nada, temos aí uma tese”.
Naquela época, Foucault ainda estava na Suécia, trabalhando como adido cultural, e enviara seu manuscrito a Canguilhem, que, desde novembro de 1955, havia sucedido Gaston Bachelard na cátedra da Sorbonne, por sugestão de outra grande figura da filosofia francesa do pós-guerra e que havia sido um de seus mestres na rue d’Ulm: Jean Hyppolite.
A frase lapidar e precisa de Canguilhem pode servir como uma espécie de emblema para qualquer avaliação que se faça da “atualidade” da História da Loucura – ou seja, não é preciso mudar nada nesse livro para que ele continue sendo sempre uma fonte inesgotável de reflexão e trabalho.
Penso aqui numa concepção de “atualidade” que não se refere única e exclusivamente àquilo que, desse livro, ainda pode ser considerado legítimo ou verdadeiro, numa espécie de “recorrência” segundo a qual o presente julga o passado de uma ciência, de um campo de saber, baseado em critérios que são do próprio presente.
Como sabemos, o critério da “recorrência”, tão fundamental para a história das ciências professada por Bachelard, foi criticado por Foucault desde, justamente, a História da Loucura. A “atualidade” de uma obra, portanto, é inseparável de sua própria história, entendida aqui tanto como a história de seu surgimento quanto a história de sua posteridade.
Dessa perspectiva, indagar sobre a “atualidade” desse livro exige, antes de mais nada, que façamos essa pergunta com base em nosso próprio solo – o Brasil – e no “presente que hoje somos”, como assim o exige o próprio Foucault.
Trata-se, portanto, de uma “atualidade” que, em vez de cortar os laços entre presente e passado, significa, ao contrário, estabelecer entre eles um espaço necessário de interrogação e interpelação. Assim sendo, o “presente que hoje somos” só adquire a fisionomia que lhe é própria na medida em que pode dirigir-se ao passado – não para venerá-lo, mumificá-lo, ornamentá-lo, mas para recolher seus apelos, suas vozes, mesmo que frágeis e antes que elas se apaguem definitivamente.
Que apelos são esses? Que vozes são essas? São os apelos e vozes, em geral na forma de gemidos, gritos, uivos, no dobrar-se quase animal dos corpos nus, estendidos num chão quente, corpos encarcerados, cujo destino era estar ali para sempre, à espera da própria morte.
Mortos-vivos
Não exagero quando pinto com essas cores o retrato dos antigos asilos, depósitos de loucos, ou melhor, de mortos-vivos, para os quais não havia nenhum consolo, nenhuma esperança.
Essa era a realidade da maioria dos antigos hospitais psiquiátricos brasileiros, que escondiam por trás de suas fachadas pomposas, construídas ainda no final do século 19, uma espécie de miséria diante da qual não havia nenhuma política pública, mas também nenhuma comiseração. O espaço asilar, entretanto, só poderia ser compreendido no exercício desses processos de exclusão absoluta e extrema, à luz de sua própria história.
Eis o primeiro aspecto fundamental que os leitores da primeira hora, de ontem, de hoje, mas também os do futuro reconheceram ou vão reconhecer no primeiro grande livro de Foucault.
Ao contrário de uma história hagiográfica, que transformava o psiquiatra em libertador dos loucos, ao contrário de uma história evolutiva e linear, que saudava o advento da psiquiatria como a ciência que enfim desvelara a verdade da loucura, ou seja, a loucura como doença mental, Foucault restitui a questão a um plano absolutamente inédito, o da história, mas não o de qualquer história, e sim aquela do embate entre razão e desrazão.
Com isso, ele inscrevia a questão da transformação da loucura em doença mental no interior dos processos que constituem a partilha entre razão e desrazão, uma partilha que fundou, como se sabe, a própria filosofia.
Com isso, chegamos ao segundo ponto: ao inscrever o nascimento do asilo e da psiquiatria no interior do embate entre razão e desrazão, Foucault transforma ambos, o asilo e o psiquiatra, num problema filosófico. E isso não é pouco, pois significa também reinscrever o espaço tradicional próprio à filosofia, que parecia absolutamente indiferente a esses “objetos” estranhos, esquisitos, julgados sem dúvida como pouco dignos diante das grandes questões acerca do ser, da verdade, da essência.
Formado na Escola Normal Superior da rue d’Ulm, Foucault não poderia ser acusado de desconhecer os grandes temas da tradição filosófica. Leitor de Nietzsche, ele pode, desde o início dos anos 1950, lutar contra o “pecado hereditário” de todos os filósofos: “a falta de sentido histórico”.
Mas também leitor de Kant, sua decisão de escrever uma tese complementar sobre a Antropologia do Ponto de Vista Pragmático já anunciava sua ideia posterior de que toda filosofia deve ser uma “ontologia do presente”.
Os três “Hs”
Formado na leitura de Husserl, Heidegger e Hegel, os três “Hs” que dominaram grande parte do pensamento filosófico francês do pós-guerra, ele aprendeu, distanciando-se da fenomenologia, a questionar o estatuto do sujeito.
Com Althusser, outro de seus mestres, ele tomou contato com o pensamento de Marx e com o marxismo, embora sempre tenha recusado a distinção entre ciência e ideologia. Aproximando-se do último Merleau-Ponty (e, com isso, afastando-se decididamente de Sartre), pôde, enfim, estabelecer um diálogo entre a filosofia e as ciências humanas.
É na convergência – e na divergência – de todos esses caminhos que a História da Loucura pôde surgir, transformando o filósofo num interlocutor fundamental e necessário para um conjunto de questões que pareciam não se incluir no campo nobre da filosofia.
Nessa perspectiva, vemos surgir um tipo especial de filósofo-historiador que deixou marcas profundas e indeléveis no Brasil. Se a primeira viagem de Foucault ao Brasil o confrontou com a ditadura militar no campus da USP, suas conferências sobre As Palavras e as Coisas não produziram o efeito posterior provocado por suas outras visitas ao nosso país.
O que Foucault passa a expor no Brasil, nos anos 1970, em diversas ocasiões, no Rio de Janeiro, em Minas, na Bahia, em Pernambuco, no Pará, é o resultado de uma profunda autocrítica à História da Loucura, tal como, em especial, os cursos “O Poder Psiquiátrico” (1973-1974) e “Os Anormais” (1974-1975) documentam com eloquência.
Eis, portanto, a fulgurante “atualidade” desse livro: seu próprio autor volta-se para ele para retomá-lo, reinscrevê-lo (e não reescrevê-lo) nas novas possibilidades de análise abertas pela problematização das relações entre saber e poder. À luz dessa autocrítica, a História da Loucura teve seu poder de fogo visivelmente ampliado, na medida em que o espaço asilar se legitima não como espaço da repressão, mas como espaço disciplinador, normalizador.
Por outro lado, ao avançar em seus estudos acerca do “poder psiquiátrico”, Foucault pôde distinguir dois movimentos essenciais na história da psiquiatria do século 19: o primeiro quando apenas o louco transformado em doente mental era seu objeto e o asilo o espaço institucional de sua intervenção, correspondendo às três primeiras décadas do século 19.
O segundo, entretanto, implica mostrar de que maneira a psiquiatria como que arromba os muros do asilo e torna sua intervenção ampliada para todo o corpo social. Ao louco como doente mental vão juntar-se todos os “anormais”. Agora, sim, a psiquiatria, triunfante, pode ser legitimada como o saber-poder por excelência, que aglutina, engloba, organiza, diversifica e rearranja tudo que diz respeito à distinção entre normal e anormal.
Ao Foucault formado na rue d’Ulm não escapou, entretanto, que essa distinção, na aparência puramente médica e, portanto, “científica”, se relacionava também com outras duas, uma epistemológica, por meio da separação entre o verdadeiro e o falso, e outra ética, por meio da distinção entre o moral e o imoral. Entre anormalidade e loucura estabelecia-se um liame indissociável, e a função da psiquiatria como uma forma de medicina social estava inteiramente legitimada.
Foi assim, então, que as reflexões de Foucault puderam estar na origem do movimento antimanicomial e na base das formulações essenciais da reforma psiquiátrica brasileira.
Isso não é pouco. Mas também não é suficiente. A “atualidade” da História da Loucura ganha assim seu elemento mais essencial, aquele que nos exige escutar as vozes que vêm do presente. Não há mais gritos, não há mais nenhum clamor?
Ernani Chaves é professor na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Pará e autor deFoucault e a Psicanálise (Forense Universitária)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Seminário "César Leite por Verdade, Memória e Justiça"!


Mesa-redonda “PARADOXOS E POTÊNCIAS NAS POSSIBILIDADES DE ATUAÇÃO DA PSICOLOGIA NAS MEDIDAS SÓCIOEDUCATIVAS”

O grupo Transversalizando convida-os para a Mesa-redonda "Paradoxos e Potências nas possibilidades de Atuação da Psicologia nas Medidas Sócioeducativas".

Fala 01: Medida Socioeducativa e Práticas Psi: exTensão e inTensão na experiência da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Profª. Dra. Gislei Domingas Romanzini Lazzarotto (UFRGS).
Fala 02: Socioeducação no Rio de Janeiro: reflexões sobre a medida de internação. Profª. Dra. Hebe Signorini Gonçalves (UFRJ).
Fala 03: A produção racista do adolescente como infrator: judicialização e medicalização em cena no dispositivo de segurança. (UFPA).
Mediadora: Mestranda Adriana Elisa Macedo (PPGP).
 
Realização: Programa de Pós-Graduação em Psicologia UFPA
Apoio: Instituto de Letras e Comunicação – ILC 
Coordenação: Transversalizando – Profª Dra. Flávia Lemos - UFPA

Data: 11/06/2013 - Horário: 15h às 17h - Vagas: 60
Local: Auditório Central do Instituto de Letras e Comunicação – ILC/UFPA

As inscrições serão realizadas no Bloco “C” da UFPA 
Horário: 8h as 12 e das 14h às 17h – Taxa de participação: R$ 5,00

Mesa-redonda “SAÚDE, DIREITOS E PSICOLOGIA: PARADOXOS DOS PROCESSOS DE MEDICALIZAÇÃO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES”

O grupo Transversalizando convida-os para a Mesa-redonda “Saúde, Direitos e Psicologia: Paradoxos dos processos de Medicalização de crianças e adolescentes"


Fala 01: A infância higienizada: contradições da sociedade liberal. Profª. Dra. Maria Lúcia Boarini (UEM).
Fala 02: Algumas análises a respeito do protagonismo juvenil: implicações para a Psicologia Social. Prof. Dr. Marcelo de Almeida Ferreri (UFS).
Fala 03: Quando o cuidado é transformado em medicalização totalizante da vida na proteção de crianças e adolescentes. Profª. Dra. Flávia Cristina Silveira Lemos.(UFPA)
Mediadora: Mestranda Evelyn Tarcilda Almeida Ferreira (PPGP).
     
Realização: Núcleo Pará - Fórum sobre a medicalização da educação e da sociedade e Programa de Pós-Graduação em Psicologia UFPA
Coordenação: Transversalizando – Profª Dra. Flávia Lemos - UFPA
Apoio: Instituto de Letras e Comunicação – ILC 
Data: 13/06/2013 - Horário: 15h às 17h - Vagas: 60
Local: Auditório Central do Instituto de Letras e Comunicação – ILC/UFPA



As inscrições serão realizadas no Bloco “C” da UFPA
Horário: 8h as 12 e das 14h às 17h – Taxa de participação: R$ 5,00